11.5.09

o fim do livro tradicional



«Diz-se que a escrita foi inventada há aproximadamente cinco mil e trezentos anos, pela necessidade prática da substituição do mensageiro. O mensageiro, utilizado frequentemente para fins militares, na maior parte das vezes morria antes mesmo de conseguir transmitir a mensagem. E, se a transmitia, normalmente era deturpada. Com a invenção da escrita, não terminaram as más interpretações. No entanto, é por causa dela que se inventa o livro.Na Suméria (sítio onde é hoje o Iraque), o livro tinha como suporte as tábuas de cerâmica ou de pedra.Só no antigo Egipto, dois mil anos depois, mais coisa menos coisa, é que o suporte do livro mudou para folhas de papiro feitas a partir da planta cyperus papyrus. Uma tecnologia tão complexa que, para terem uma ideia, a produção de uma folha de papiro custaria o equivalente a 50 euros. Como podem verificar, comparativamente, os livros são hoje bastante mais baratos.O cilindro de papiro foi um avanço tecnológico enorme em relação às tábuas, quebradiças e pesadas, de cerâmica. Manteve-se durante muitos e longos anos, da Grécia antiga ao Império Romano. E é exactamente nesta altura que o livro mais se desenvolveu e se expandiu a todas as áreas do conhecimento humano. Como curiosidade, foi Júlio César que mandou construir a primeira biblioteca pública e, paradoxalmente, foi também apontado como um dos responsáveis pelo incêndio que destruiu a lendária biblioteca de Alexandria.Na antiguidade ocidental o livro mantém o suporte, o cilindro de papiro. Na Idade Média surge o pergaminho. É assim até ao invento do papel pelos chineses. O codex, isto é, o livro tal como o conhecemos, mantém-se praticamente inalterado desde há mais de meio milénio, graças à invenção de Gutenberg.O livro em papel foi, em toda a história do Homem, o objecto de tecnologia cultural mais venerado. Agora constantemente se ouve falar do seu fim. Não há dia em que não surjam notícias sobre os novos suportes para o livro, os famosos livros electrónicos ou e-books. Sou um céptico em relação ao livro digital, sinceramente não acredito muito no seu sucesso. Desde já, porque são demasiado caros e pouco atraentes esteticamente. Julgo que, por uns tempos, o livro “tradicional” vai continuar a passar a perna ao livro tecnológico. Fala-se de que um tipo de papel orgânico será o futuro dos ecrãs. Imaginem, se assim for, as potencialidades de um livro.
A transmissão do conhecimento no futuro deixará forçosamente de se fazer através do livro tradicional. Contudo, penso que passará muito mais por qualquer coisa parecida com a hipnopédia do extraordinário livro de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, do que por um qualquer e-book.»

Jaime Bulhosa

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