28.9.10

Crónicas torrejanas 6_ A Escola Secundária Maria Lamas

foto retirada daqui

Fui aluna da Escola Secundária Maria Lamas durante 6 anos, desde o ano lectivo 1993/94 ao ano lectivo 1998/99. Entrei lá com 11 anos e saí com 17. É impossível não guardar as melhores memórias desta escola!

A escola era conhecida como «a Escola Nº 1» (por oposição à nova escola construída nas Chãs, designada como Nº 2, mais tarde Artur Gonçalves) ou «a Maria Lamas». Na «Maria Lamas» andavam os alunos da cidade e, na Nº 2, os das aldeias (isto assim dito à pressa e generalizando, claro!).

Ir para «a Maria Lamas» era um sonho. Sair do Ciclo e poder ir para o pé dos “grandes” era uma conquista. Entrar na «Maria Lamas» pela primeira vez foi uma revelação. A geografia da escola definia a estirpe dos seus ocupantes. O edifício cor-de-rosa, o primitivo, estava guardado para os «grandes», a malta do décimo, décimo primeiro e décimo segundo ano. Para os «putos» estavam reservados os barracões ou galinheiros, como eram conhecidos os pavilhões provisórios construídos no pátio da escola.

As áreas de lazer estavam igualmente definidas pelos seus “habitantes”. A “zona alta” dos galinheiros, mais propriamente no barracão da associação de estudantes, era frequentada pelo pessoal da associação que eram os mais velhos (de um modo geral pessoal do grunge, do rock e do metal) e, para mim, os mais giros (era um sonho vê-los passar com o capacete da mota pendurado no braço)… Na zona das oficinas juntava-se, frequentemente, um grupinho das Tufeiras, que além deste tinha outros pousos. Na parte que fazia a ligação entre o bar (que ficava do lado dos galinheiros, no alinhamento das oficinas) e o edifício principal da escola, havia uma passagem – que mais não era do que um grande alpendre – que tinha um pequeno cubo incorporado nas escadas (uma coisa que terá sido ocasionada pela necessidade de elevar o piso durante a construção dos degraus). Graças a esse cubo, esta zona de passagem ficou conhecida como «o quadrado». «O quadrado» era o sítio mais in da escola), bem à moda do Beverly hills 90210. Era só gente de bem (e os que assim queriam parecer) que ali parava, os designados «betos». Além destes, e como aquele era um local de passagem, eram muitos os que nos intervalos se misturavam naquele alpendre: uns a comer, outros a fumar, outros a passar para ir para as aulas. Quando, por acaso, tínhamos alguma aula no edifício principal, fazíamos questão de passar pelo «quadrado», só para ver, claro, porque nessa altura ninguém olhava para nós.

Anos mais tarde, já o «quadrado» havia perdido o estigma dos «betos» e tinha-se tornado uma zona mais democrática, também eu e os meus ali parámos. No entanto, eu pertenci a um grupo de alunos que foi «expulso» da escola por falta de espaço! No ano lectivo de 1996/97, os alunos de Humanidades (que era o agrupamento em que eu me inseria) foram mandados para o edifício do antigo ISLA (que também já tinha sido o centro de saúde), que ficava ali perto da escola, na Rua do Jogo da Bola. Todavia, em todos os intervalos seguíamos para «a Maria Lamas» e passávamos esses escassos 10 minutos com os nossos amigos e namorados das outras turmas dos outros agrupamentos. Não foram raras as vezes que partimos para passar lá o intervalo e não voltámos para a aula seguinte. Acontecia com mais frequência nos meses de Primavera, quando o sol começava a bater no campo de jogos e a malta se estendia lá a levar com a vitamina D. Claro que passados dez minutos ninguém tinha vontade de ir à aula de Latim e ficávamos, quais lagartixas, ao sol, a fazermos de almofadas uns aos outros. Aquelas tardes não tinham fim, se tinham não dávamos conta disso. A nossa adolescência era demasiado jovem e nós éramos diamantes brutos ao sol. Nenhum de nós imaginava que poderia morrer sem uma causa, sem ouvir as músicas que sempre desejara ouvir, sem cumprir os sonhos que se esboçavam na dormência das tardes que passávamos deitados ao sol no campo de jogos.



«It's so hard to get old without a cause

i don't want to perish like a fading horse

youth is like diamonds in the sun

and dimonds are forever

so many adventures couldn't happen today

so many songs we forgot to play

so many dreams are swinging out of the blue

we let them come true»*



As aulas no ISLA tinham o seu quê de especial, havia lá ao lado uns quintais com galinhas e patos que tornavam as aulas de francês mais divertidas. E da janela que dava para a Rua do Jogo da Bola sempre se podia ver quem passava e distrairmo-nos nas aulas de português e de inglês. Além disto, à porta do ISLA os meus amigos tinham sempre lugar para estacionar as suas motas, as Typhoon, a BWS e a DT, ficavam ali alinhadas à espera que os seus donos e respectivos penduras (como eu) saíssem com ganas de girar até ao Entroncamento ou qualquer outro sítio.

Do bar da «Maria Lamas» não consigo tirar do pensamento as napolitanas de chocolate (há quem fale também de uns cachorros quentes, feitos com uma baguette que estava entalada num ferro quente que fazia um buraco no meio do pão, onde, depois, se colocava a salsicha. Mas eu não comia cachorros…). Dos funcionários não posso esquecer o contínuo (que andava sempre um bocado encarniçado da bebida) que fez chichi no lavatório de um dos barracões onde tínhamos aulas no 9º ano.

Muito mais do que as aulas, a escola eram os professores, os colegas e, claro, os intervalos depois dos quais, como zombies, regressávamos para as aulas.

«In your head, in your head,

Zombie, zombie, zombie,

What's in your head,

In your head,

Zombie, zombie, zombie?»**



*«Forever young», 1984, Alphaville. Não era música que se ouvisse nos tempos da escola secundária. Só a descobri em 1999, quando fui para a faculdade. Desde então, este é o meu hino.
** «Zombie», música de protesto composta pelos irlandeses Cranberries. Foi um verdadeiro sucesso em meados dos anos 90, altura em que foi lançado o álbum No need to argue (1994). 

20.9.10

Crónicas torrejanas _ 5 _ No morro do castelo


No morro do castelo, do lado que dá para o rio Almonda, havia em tempos um banco em pedra. Ficava ali mais ou menos perto da porta que daria para o Porto dos Surdos. E ainda bem que seriam surdos os que por ali andavam, é que no banco do morro muitas histórias e peripécias de amor aconteciam, tantas juras, tantas brigas e tantas “pazes” feitas.

O caminho para lá chegar era tortuoso e sinistro. Era preciso circundar a fortaleza à boa maneira medieval, entre a mata, bem agarrada a um qualquer príncipe ou cavaleiro sem cavalo. O trilho já estava marcado no chão cujas ervas, de tanto serem pisadas, haviam já desistido de ali nascer.

Chegados ao banco, os casais enamorados ali ficavam, olhando o dorso da serra, o rio e o casario. Os beijos surgiam entre as brisas que vinham do lado do mar e as juras de amor eram trocadas no calor dos verões quentes da província.

O local era de tal forma apetecível que, muitas vezes, quase se fazia fila para ocupar aquele banco. Entre o banco do morro e o cruzeiro do adro do Salvador, quase todos escolhiam o banco. O cruzeiro tinha a sua graça e foi palco de namoricos famosos cá na terra nos anos 90, mas, a certa altura, os seus hóspedes deixaram de pensar no amor, esqueceram o rock n’roll e passaram a dedicar-se às drugs…

No banco do morro, as coisas mantinham-se mais bucólicas e o romantismo da folhagem verdejante e do leito lento do Almonda deixava aos amantes espaço quer para longas divagações amorosas, quer para encontros mais fugazes. Encostados às pedras medievais do castelo e inspirados pelos ares da Serra de Aire, os enamorados debitavam entre si frases kitsch, chavões pouco autênticos, enfeitados com palavras das quais mal sabiam o significado. Afinal, os corações queriam saltar de dentro do peito, as mãos transpiravam, todo o corpo estava em chamas e nem a frescura vinda das bandas de Aire e Candeeiros os podia salvar daquele fogo no qual se lançavam furtivamente.



«You know that it would be untrue

You know that I would be a liar

If I was to say to you

Girl, we couldn't get much higher

Come on baby, light my fire

Come on baby, light my fire

Try to set the night on fire»*

Come on baby light my fire», 1967, The Doors. Em 1991, Oliver Stone lançou o filme The Doors, onde Val Kilmer desempenhava o papel de Jim Morrison. Desde a morte do vocalista dos The Doors que se vivia uma fase de pós-Doors, de culto da personagem Morrison, da sua rebeldia, liberdade e loucura. Muitos eram os que mantinham ainda os posters dos The Doors nas paredes do quarto e eram imensos os que liam religiosamente a poesia alucinada de Morrison.

15.9.10

Crónicas torrejanas _ 4_ O JOTA


Rua da Levada, logo ali como quem sobe à Travessa da Esperança, ai ficava o Jota. À porta, um papagaio estridente preso a um pedestal prateado: «Olá! Olá!». Dizia o bicho com aquela voz rouca de papagaio engasgado sempre que lá entrávamos. Não se podia passar despercebido ali, o animal dava logo sinal! Entrando no estabelecimento, lá estava o senhor Jota (nunca soube como se chamava na realidade!). Alto, de bigodes negros. Por detrás dele, em display na parede, havia de tudo: isqueiros, medalhas, pratos, umas colecções de copos e outras mais, uma quantidade incrível de tralha que nunca percebi de onde vinha nem quem a quereria comprar. Estava lá também o kit das bolas de snooker, fechado à chave até que alguém pagasse para jogar (jogava-se na sala anexa, cujo acesso se fazia por ali mesmo descendo apenas uns degraus), e estava, naquela parede, aquilo que nós desejávamos: o cigarrinho avulso! Para os jovens inconscientes como nós, para quem a vida não tinha fim e o início era o dia de hoje, o cigarrinho avulso era uma conquista! Já não me lembro a como é que estava o cigarro na época (talvez uns 10 escudos), mas era certo que ficava muito mais barato do que desembolsar quase toda mesada num maço! Também para o que se fumava, chegava bem! Aquele era o cigarrinho do estilo, nada mais.


Mas, o melhor do Jota era lá em cima. Esta casa de culto da juventude torrejana dos anos 90 tinha, no piso superior, uma sala de jogos bem apetrechada. Aqui havia todas as máquinas da moda: Bubbles, Metal slug, Tetris, Street fighter, Pang, Shinobi, Pac-man… não faltava a velha D. Elvira e a clássica Juke Box para dar música à malta. O acesso ao Jota (lá de cima) fazia-se pela Rua Tenente Valadim, ali mesmo em frente à mercearia da D. Maria da Luz, num pequeno largo improvisado onde os rapazes estacionavam as suas motas, que faziam a delícia das miúdas. O tipo da XT, normalmente levava a melhor, claro! A mota era das mais barulhentas, o que significava que todas olhavam e até estremeciam quando ela arrancava! Havia depois uns mais franzinos com as suas Macal (esses era raro safarem-se) e os da “classe média” que já se apresentavam de DT. Todos motociclos de categoria superior (e seus donos) eram, obviamente, tidos em conta na observação apurada das miúdas que por aí rondavam.

O Jota (o estabelecimento, claro!) tinha má fama. Mas, na realidade, o que ali se passava nada tinha de mal. Eram as vidas de putos de 15 anos (uns mais novos e uns mais velhos), as «normais irreverências» de quem ainda pouco se entretinha em casa com os jogos de computador, ainda débeis na época, e que ali procurava a adrenalina e alienação que as máquinas do salão de jogos lhes podiam oferecer.

Em meados dos anos 90, o computador ainda não nos prendia em casa, eram poucos os que tinha dito Ok computer. Aliás, eram poucas as razões para ficar em casa. Só a música, bem alta, nos detinha entre as quatro paredes dos nossos quartos e nos deixava paranóicos, uma vez que não a podíamos levar para a rua, os headphones dos anos 80 tinham caído em desuso e não estava na moda usar nada nas orelhas, só furos para brincos (para elas e para eles).


«Please could you stop the noise, I'm trying to get some rest

From all the unborn chicken voices in my head

What's that...? (I may be paranoid, but not an android)

What's that...? (I may be paranoid, but not an android)»*

*«Paranoid android» é um dos singles mais populares do álbum Ok Computer, lançado em 1997 pela banda inglesa Radiohead. Entre o rock alternativo-experimental, na onda do post-grunge e do electrónico, os Radiohead ganharam fama pelos seus temas sobre a alienação dos tempos modernos.

10.9.10

Green Day - When I Come Around (Video)

3_Romaria de sexta-feira à tarde (FAME)


Treze anos, muita energia, muito riso e pouco siso!

Os dias eram passados na galhofa, entre as aulas e os intervalos cheios de risinhos marotos entre rapazes e raparigas. Os pavilhões provisórios da Escola Maria Lamas eram o palco das loucuras já pouco ingénuas e das gargalhadas tão intensas, ora porque o peixinho vermelho tinha morrido e a stôra nos dera um chocolate para amenizar a nossa dor, ora porque a stôra de Ciências trazia um tailleur rosa que era um mimo… tudo era motivo para gargalhar, para chorar a rir, às vezes até sem motivo.

Às sextas-feiras à tarde estava no horário a disciplina de Educação Visual. À partida, nestas aulas aprendia-se a ver o mundo e a descrevê-lo graficamente. Mas o mundo estava lá fora e as ovais e ovos feitos com compasso e esquadro em pouco correspondiam ao mundo, à terra, aos sonhos que se pintavam ainda em cores garridas e tão bruxuleantes.

Por isso, a aula de sexta-feira à tarde era muitas vezes substituída por uma aula prática, por nós “inventada”, chamada disco. Às três da tarde era hora de começar a arrumar a tralha para rumar à Fame, a discoteca do Sr. Fausto, que ficava em Valverde, ali ao por detrás da igreja de Santiago, na Rua de Santiago (em tempos chamada, precisamente, Rua de Sant’Iago Debaixo). O Sr. Fausto fizera da garagem da sua casa uma estupenda discoteca e às sextas-feiras à tarde decorriam as matinés. Super-concorridas! Vinha gente do Entroncamento, da Golegã, da Chamusca… parava lá tudo! Era uma espécie de melting pot da província! Para quem andava na Escola Maria Lamas era a oportunidade de encontrar a rapaziada da Escola Nº 2 (depois chamada de Artur Gonçalves). Na altura, a Escola Maria Lamas era frequentada, sobretudo, pelos meninos da cidade, e a «Número 2» era povoada pela malta que vinha das aldeias. Que melhor local para intercâmbios culturais se não a Fame?

Ora, então, seriam aí umas três e meia da tarde e lá começava a romaria para a Fame. Pela rua, palhaçadas, risadas e risinhos entre as meninas, olhares indiscretos dos meninos… Nesse dia, vestia-se a melhor roupa e os cabelos tinham de estar impecáveis (rebeldes e revoltosos como nós próprios)! Chegadas à porta, era a ver quem entrava primeiro, quem conseguia espreitar: «Ai, está cá Fulano! Ah!!»… A impaciência para saber quem estava, quem viria esta tarde... Nesta altura os namoricos já começavam a aquecer as tardes e importava saber quem estaria lá, para adequar as palavras que se haviam de dizer. É que além do «Posso-te conhecer?» da moda, havia depois que fazer conversa…

Entrava-se, por fim… Uau! Primeira sensação: «Não vejo nada!» A luz do Sol lá de fora havia-nos cegado e, perante a escuridão da sala, não se via nada! Só vultos. Quando o negro começava a dissipar-se e as imagens se tornavam mais nítidas, podia-se finalmente usufruir do ambiente da Fame. Sofás vermelhos de veludo, espelhos nas paredes, chão preto, bolas de espelhos… Que coisa magnífica para umas miúdas de treze anos que o queriam era sentir, emocionar-se e viver! E ali sentia-se. Sentia-se a música, o calor dos corpos na pista, o suor das mãos dos rapazes quando nos cumprimentavam e emocionávamo-nos em namoros ali começados e acabados, entre uma coca-cola e uma música dos Offspring ou dos Green Day…



«I heard you crying loud,
all the way across town
You've been searching for that someone,
and it's me out on the prowl



As you sit around feeling sorry for yourself
Don't get lonely now
Dry your whining eyes
I'm just roaming for the moment
Sleazin' my back yard so don't get so uptight
you been thinking about ditching me




No time to search the world around
Cause you know where I'll be found
When I come around

I heard it all before
So don't knock down my door
I'm a loser and a user so I don't need no accuser
to try and slag me down because I know I'm right



So go do what you like
Make sure you do it wise
You may find out that your selfdoubt means nothing
was ever there
Bridge



You can't go forcing something if it's just
not right

No time to search the world around
Cause you know where I'll be found



When I come around
When I come around»*



Lá para as seis horas, tínhamos que zarpar dali. Era hora da mãe chegar a casa e ninguém podia dar conta que havíamos passado a tarde na Fame. Quando saíamos, o Sol já ia baixo, mas ainda fazia impressão nos olhos. Agora, era preciso meter a irreverência dessa sexta-feira no bolso e correr para casa com ar de menina bem comportada que sabe usar um compasso e que não se perde em padrões multicolores.

Durante a semana a conversa na escola era sobre aquilo que se vivera na sexta-feira. Na próxima quinta-feira começávamos a pensar como seria a sexta que havia de vir. Marcavam-se os encontros e desmarcavam-se os compromissos agendados, como eram as aulas de Educação Visual. Vivíamos para aquelas sextas-feiras de Fame onde realmente éramos educadas para o mundo que nos rodeava: víamos e sentíamos o mundo dentro daquela garagem que o Sr. Fausto transformara em discoteca de emoções.


*«When I come around», o single mais popular da banda norte-americana Green Day, tocava em 1995 sem parar nos nossos rádios e, obviamente, nas discotecas.

9.9.10

2_O raiar do sol na Nazaré

Nasci em Janeiro e fui pela primeira vez à praia em Julho desse ano. A primeira praia que conheci foi a praia da Nazaré. Foi o meu primeiro amor e, como se costuma dizer, não há amor como o primeiro. Eu sabia que este amor não era só meu. Tinha de o partilhar com grande parte dos torrejanos – no Verão, esta era a praia eleita de tantos. Por lá se encontravam as mesmas caras que víamos cá: as vizinhas da barraca de praia eram as vizinhas do bairro de S.to António e as conversas que as senhoras faziam no café Império da vila, em época estival decorriam no café Oceano, na Praça Manuel Arriaga, na Nazaré.

Todos os anos o ritual se repetia. Preparava-se tudo com aprumo e rumava com a mãe da minha mãe durante os meses de Verão para a praia da Nazaré: eu, duas primas e a minha avó. O meu avô havia comprado uma casa lá, mesmo na praia do lado Norte, na Rua Três de Setembro, a do restaurante Tamanco. Era fácil lá chegar: no edifício que dava para a estrada estava desenhado um grande Tamanco indicando que era ali o tal restaurante e, além disso, ao início da rua havia um posto móvel dos correios, que, ao final do dia, se enchia de gente. Na altura não havia telemóveis e o posto móvel era a única possibilidade de comunicar com os que estavam na terra. Dali podíamos, mediante pagamento (claro), fazer telefonemas e enviar cartas ou postais ilustrados com as típicas «praieiras» de sete saias ou os carapaus a secar ao sol. À saída da praia e à noite (altura do dia em que as chamadas eram mais baratas), era ver o pessoal a fazer fila ao pé dos telefones. Por isso, era mesmo muito fácil dar com a nossa casa de praia, ninguém se perdia. A porta estava identificada com o número doze, mas era fácil reconhecer a casa pelo tanque verde que estava fixo na varanda.

A casa era uma típica habitação de pescadores. Dois pisos e um sótão. No primeiro piso a cozinha e a casa de banho; no segundo, a sala que era também o quarto. Mais tarde o meu avô aproveitou o sótão e ganhámos mais um quarto com uma vista singular, virada a norte, que dava para o Sítio, alongando-se sobre o casario (a norte e nordeste) e para o mar (a oeste) … A exiguidade da casa não significava falta de visitas e hóspedes. Ninguém se importava de dormir estendido num colchão, dentro de um saco-cama. Valia tudo para passar uns dias na Nazaré.

Quando a minha mãe lá estava, de manhã, íamos (bem cedo) para «as rochas» apanhar tudo o que mexia e o que não mexia também! Lapas, caranguejos, caracóis e estrelas-do-mar, pedrinhas e algas. Eu carregava tudo no meu baldito cor-de-rosa de plástico. Não posso esquecer o cheiro abundante a mar dessas manhãs. A barraca às riscas, as banhocas, a bolacha americana, as bolas-de-berlim, os geladinhos tirados da máquina que desenhava a chocolate e baunilha uma cornucópia sobre o cone de uma bolacha já meia mole… doces recordações da praia da Nazaré. À noite, depois do jantar, vestia-se um casaquinho e calçavam-se as sapatilhas e saímos, como tantos outros, para o passeio na calçada à beira-mar. Não havia nada como saltar para as cavalitas do meu pai e observar a multidão que por ali andava. Com o meu pai, fazia também longas caminhadas da praça dos cafés até ao Sítio e do Sítio à Praia do Norte. Ficava ali, com o meu pai e com a minha mãe, naquela inóspita e longa praia de areia rugosa, a contemplar o mar, o brilho do sol... Ficávamos assim tempos infinitos (acho que ainda lá estamos!).

Eu corria a «praia» de norte a sul. Conhecia as ruelas estreitas e as vielas que iam dar à padaria, à mercearia, à Oficina (um tasco onde se ia buscar sopa)… Eu ficava quase sempre encarregue dos recados e não me importava nada! A experiência que adquiri nestas voltas servir-me-ia, anos mais tarde, para guiar as minhas amigas nas férias grandes que ali passávamos.

Nesses anos, já os anos noventa iam a mais de meio, a praia da Nazaré ganhava outras cores e tons que antes não conhecia. Éramos adolescentes e os pores-do-sol tinham agora outra magia. Eu e as minhas amigas íamos de Torres Novas para a Nazaré de autocarro. Era um longo percurso que durava quase o dia todo, com direito a transbordo em São Jorge e uma paragem para fazer chichi em Alcobaça. Mas, mesmo assim, em meados dos anos 90, a Nazaré era a nossa praia, sem dúvida!

As manhãs eram de preguiça, as tardes de praia e as noites de animação. Depois do jantar dávamos sempre as nossas voltinhas pelos cafés e parávamos com frequência numa discoteca lá do lado sul, perto do «molho». À saída da discoteca, rumo a casa, havia tempo para parar na roulotte dos cachorros quentes (na época era uma carrinha daquelas a que chamam «pão de forma» da volkswagen). Às vezes, ainda íamos buscar bolos e pão quente à padaria da Rua Cimo de Vila. Mas, outras vezes, esperávamos, tão simplesmente, o nascer do sol no lado leste da vila. Éramos jovens e acreditávamos que o quando o sol nascia era para todos, que impossível era aquilo que nunca tentáramos fazer e que aquele era apenas o primeiro dia do resto das nossas vidas.



«Enfim duma escolha faz-se um desafio

enfrenta-se a vida de fio a pavio

navega-se sem mar, sem vela ou navio

bebe-se a coragem até dum copo vazio

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida



E entretanto o tempo fez cinza da brasa

e outra maré cheia virá da maré vazia

nasce um novo dia e no braço outra asa

brinda-se aos amores com o vinho da casa

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.»*

*«O primeiro dia» tocava na nossa aparelhagem portátil da Sony (tão na moda!), com leitor de compact discs. Era a faixa 4 do CD Noites Passadas (ao vivo), 1995, de Sérgio Godinho.


8.9.10


foto roubada aqui

Hoje ofereceram-me um caderninho com a dedicatória:
«para que continues a escrevinhar»
(foi mais ou menos isto)
Obrigada!

Na capa do caderno lê-se:
«Yesterday once more»

Jardinar

foto roubada aqui

Esta semana ando a jardinar.
Tenho descoberto que mexer na terra, picar-me nas roseiras e regar ao fim do dia são excelentes rituais de relaxamento e de reposição das energias.
GoSTo!

7.9.10

1_Pela estrada fora

Vestia vestidinhos de roda e calçava sapatinhos de fivela. Cabelitos encaracolados, presos em dois totós com elásticos a condizer com a cor da fatiota. Eu era uma menina, ainda nem tinha 5 anos, ou talvez os tivesse feito há pouco.
Brincava o dia inteiro entre letras, números e desenhos fantasiados à espera que a mamã chegasse. No Jardim-Escola tratavam-me como a uma princesa, mas a mamã tardava sempre em chegar. Era o avô (ora o pai da mãe, ora o pai do pai) quem me ia buscar pela tardinha, depois do leite e do pão com manteiga do lanche.
O pai da mãe era um homem novo, dos seus 50 e poucos anos, conduzia uma carrinha alta, o que para mim era uma aventura! Subir para a carrinha e avistar lá do alto os carros e as pessoas que passavam na estrada! Uau!
O pai do pai ia buscar-me mais raramente, mas quando ia… o sonho começava. O avô Zé, chamava-se assim (tinha o mesmo nome do meu pai), era um homem muito, mas muito alto, pelo menos para mim, que nem lhe dava pelos joelhos. O avô Zé tinha braços e pernas compridas e as mãos eram muito grandes. Quando o via corria para ele, com vestidinho a esvoaçar e os cabelitos a quererem soltar-se… O avô dava-me a mão e iniciávamos a viagem pelas ruas da vila, das Tufeiras, onde ficava o Jardim-Escola, até à Praça 5 de Outubro, onde morava o avô e a avó. Deste caminho de pouco mais de 5 minutos, o que me ficou na memória, foi a descida da ladeira das urgências do hospital…
O avô estendia-me a mão e eu agarrava-a com força. Podia sentir-lhe os vincos e os sulcos do trabalho da terra. A mão do avô contava a história da Quinta da Marmela, onde trabalhara em tempos e onde alguns dos seus irmãos haviam nascido (um até tinha morrido lá, numa brincadeira de rapazes, afogado num tanque), das roseiras tristes que podava na casa das senhoras de bem, e das oficinas das camionetas da Rodoviária onde trabalhava agora, todos os dias.
Descíamos para o lado do hospital, o antigo convento do Carmo, e, em chegando à rua da porta das urgências, começávamos a descer a íngreme ladeira que ia dar direitinho ao jardim da Avenida. Era nesta altura que eu esmagava a mão dele contra as minhas e fincava bem as solas dos sapatinhos de fivela ao chão… A ladeira era tão íngreme e tão polida que parecia que ao mínimo descuido escorregaria e ia a rebolar até ao Almonda. Mas o avô dizia-me para confiar em si, que não tivesse medo, que ele era grande e forte e que as suas botas eram das boas… Eu olhava e examinava-o com atenção, garantindo a verdade das suas palavras. Era tudo verdade! E as botas eram mesmo das boas. A sola nem deslizava no alcatrão, era firme, e o ar delas era tão robusto que não dava para duvidar da sua resistência e da aderência. Agarrada à mão do avô, fazendo confiança nas suas botas, deixava-me ir. Descíamos, então, a ladeira. Lado a lado, sem pestanejar.
Dali até à casa da avó era um instantinho e as histórias do avô animavam a caminhada. Seguíamos pela Avenida e o avô ia-me dizendo que ali já tinha sido o Colégio e que, mais à frente, era a Casa Nery. Ele conhecia muitos “rapazes” que aí trabalhavam. Pelo menos era o que ele dizia. «Rapazes», dizia ele. Mas quando apontava para eles ou lhes acenava, via-se que já eram homens feitos, alguns até já velhos… Passando a Ponte do Raro vinha a história dos homens das oficinas: que eram bons homens, que trabalhavam bem e que, sempre que havia, lhes levava cigarrinhos daqueles que ficavam esquecidos nas mesas do Clube Torrejano. É que a avó trabalhava no Clube (ela é que “mandava” naquilo tudo: na cozinha, nas festas! Punha aquilo a mexer!) e ao fim da noite o avô ia sempre ajudá-la a limpar o chão e a fechar a porta. Os senhores da alta sociedade torrejana iam para ali jogar cartas, dados, póquer… bebiam bebidas que só os mais endinheirados bebiam e fumavam cigarros que só alguns podiam comprar. Mas com os copos a mais e a birra da derrota do jogo, muitas vezes iam-se embora sem levar os cigarros. E o avô Zé, na limpeza nocturna, limpava-os que era um instante. No dia seguinte, era festa na oficina, porque o avô não era homem de ficar com a mercadoria só para ele. Distribuía-a pelos companheiros e faziam a festa à custa da ebriedade dos ricos!
Passado o Largo da Portela, começava o avô com aquela história do costume… A Lua e os americanos… eu não percebia nada mas, ao que parece, os americanos diziam que tinham ido à Lua há uns anos, mas o avô não acreditava nesses embustes! «Foram à Lua, foram! Isso é uma intrujice do capitalismo!». Sabia lá eu o que ele estava a dizer… Mas o avô lá continuava a dizer que Lua estava muito longe e ninguém conseguia lá andar em pé! Eu dizia-lhe que sim, que tinha razão, pois claro! Então como é que se podia ir à Lua se ela está lá sempre tão alta! Rematava sempre: «Ó Lua que vais tão alta, redonda como um tamanco… Ó Maria traz cá a escada que não chego lá com o banco!» e ria-se, muito! E eu também me ria, sem perceber nada, mas ria, muito.


«Olha o céu lá no fundo do chapéu.

Olha o sol e a lua a namorar.

Olha o céu lá no fundo do chapéu,

onde tu e eu vamos chegar.» (ver NOTA)

A casa da avó ficava na ladeira de Gil Pais. Em vez de atalharmos logo pelas Escadinhas da Misericórdia, atravessávamos a Praça toda. Parecia comprida aquela Praça! Mas o avô queria tardar aquele passeio e eu não me importava nada! Íamos brincando nas ondas da calçada: «agora só se pode pisar o azul, agora o branco; agora ao pé-cochinho!» Que festa!
Lá do alto do terraço, mesmo ao ladinho do painel de Gil Pais, lá estava a avó. Carrancuda, como já nos havíamos habituado a vê-la! Gritava ela lá de cima: «Aviem-se!» O avô ficava logo em sentido. Agarrava-me ao colo e dizia: «Vamos, vamos, rapariguinha, que avó ralha com o avô. Xiça!» E lá ia eu no alto colo do grande avô, agarradinha ao seu pescoço esguio. Subíamos a ladeira em passo de corrida, puxávamos o cordel da porta vermelha de madeira e galgávamos a escadaria do quintal, até lá a cima, onde estava a avó.


NOTA: «Olha o céu lá no fundo do chapéu», do LP Zarabadim (música de Carlos Alberto Moniz; letra de José e Dulce Fanha). O disco vem na sequência do êxito programa infantil com o mesmo nome, transmitido pela RTP em 1985.

Está na hora de mostrar o que valho

Aqui ficam, nos próximos posts, as minhas crónicas torrejanas.

Estórias do quotidiano de uma torrejana nascida em 1982, entrecortadas por reminiscências musicais da época (anos 80/90). A infância e a adolescência passadas numa vila que virou cidade: uma terra que de vila onde só havia um semáforo, passou a cidade onde há vários semáforos, talvez uma dezena de rotundas e muitos hipermercados.

marga na rua de gil paes, rua da casa da avó, Torres Novas

2.9.10

Boas notícias

AQUI

parece que este livro fantástico vai ser editado em Portugal. Boa!

:)

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foto marga; Museu das Socas, Holanda, 2008