7.9.10

1_Pela estrada fora

Vestia vestidinhos de roda e calçava sapatinhos de fivela. Cabelitos encaracolados, presos em dois totós com elásticos a condizer com a cor da fatiota. Eu era uma menina, ainda nem tinha 5 anos, ou talvez os tivesse feito há pouco.
Brincava o dia inteiro entre letras, números e desenhos fantasiados à espera que a mamã chegasse. No Jardim-Escola tratavam-me como a uma princesa, mas a mamã tardava sempre em chegar. Era o avô (ora o pai da mãe, ora o pai do pai) quem me ia buscar pela tardinha, depois do leite e do pão com manteiga do lanche.
O pai da mãe era um homem novo, dos seus 50 e poucos anos, conduzia uma carrinha alta, o que para mim era uma aventura! Subir para a carrinha e avistar lá do alto os carros e as pessoas que passavam na estrada! Uau!
O pai do pai ia buscar-me mais raramente, mas quando ia… o sonho começava. O avô Zé, chamava-se assim (tinha o mesmo nome do meu pai), era um homem muito, mas muito alto, pelo menos para mim, que nem lhe dava pelos joelhos. O avô Zé tinha braços e pernas compridas e as mãos eram muito grandes. Quando o via corria para ele, com vestidinho a esvoaçar e os cabelitos a quererem soltar-se… O avô dava-me a mão e iniciávamos a viagem pelas ruas da vila, das Tufeiras, onde ficava o Jardim-Escola, até à Praça 5 de Outubro, onde morava o avô e a avó. Deste caminho de pouco mais de 5 minutos, o que me ficou na memória, foi a descida da ladeira das urgências do hospital…
O avô estendia-me a mão e eu agarrava-a com força. Podia sentir-lhe os vincos e os sulcos do trabalho da terra. A mão do avô contava a história da Quinta da Marmela, onde trabalhara em tempos e onde alguns dos seus irmãos haviam nascido (um até tinha morrido lá, numa brincadeira de rapazes, afogado num tanque), das roseiras tristes que podava na casa das senhoras de bem, e das oficinas das camionetas da Rodoviária onde trabalhava agora, todos os dias.
Descíamos para o lado do hospital, o antigo convento do Carmo, e, em chegando à rua da porta das urgências, começávamos a descer a íngreme ladeira que ia dar direitinho ao jardim da Avenida. Era nesta altura que eu esmagava a mão dele contra as minhas e fincava bem as solas dos sapatinhos de fivela ao chão… A ladeira era tão íngreme e tão polida que parecia que ao mínimo descuido escorregaria e ia a rebolar até ao Almonda. Mas o avô dizia-me para confiar em si, que não tivesse medo, que ele era grande e forte e que as suas botas eram das boas… Eu olhava e examinava-o com atenção, garantindo a verdade das suas palavras. Era tudo verdade! E as botas eram mesmo das boas. A sola nem deslizava no alcatrão, era firme, e o ar delas era tão robusto que não dava para duvidar da sua resistência e da aderência. Agarrada à mão do avô, fazendo confiança nas suas botas, deixava-me ir. Descíamos, então, a ladeira. Lado a lado, sem pestanejar.
Dali até à casa da avó era um instantinho e as histórias do avô animavam a caminhada. Seguíamos pela Avenida e o avô ia-me dizendo que ali já tinha sido o Colégio e que, mais à frente, era a Casa Nery. Ele conhecia muitos “rapazes” que aí trabalhavam. Pelo menos era o que ele dizia. «Rapazes», dizia ele. Mas quando apontava para eles ou lhes acenava, via-se que já eram homens feitos, alguns até já velhos… Passando a Ponte do Raro vinha a história dos homens das oficinas: que eram bons homens, que trabalhavam bem e que, sempre que havia, lhes levava cigarrinhos daqueles que ficavam esquecidos nas mesas do Clube Torrejano. É que a avó trabalhava no Clube (ela é que “mandava” naquilo tudo: na cozinha, nas festas! Punha aquilo a mexer!) e ao fim da noite o avô ia sempre ajudá-la a limpar o chão e a fechar a porta. Os senhores da alta sociedade torrejana iam para ali jogar cartas, dados, póquer… bebiam bebidas que só os mais endinheirados bebiam e fumavam cigarros que só alguns podiam comprar. Mas com os copos a mais e a birra da derrota do jogo, muitas vezes iam-se embora sem levar os cigarros. E o avô Zé, na limpeza nocturna, limpava-os que era um instante. No dia seguinte, era festa na oficina, porque o avô não era homem de ficar com a mercadoria só para ele. Distribuía-a pelos companheiros e faziam a festa à custa da ebriedade dos ricos!
Passado o Largo da Portela, começava o avô com aquela história do costume… A Lua e os americanos… eu não percebia nada mas, ao que parece, os americanos diziam que tinham ido à Lua há uns anos, mas o avô não acreditava nesses embustes! «Foram à Lua, foram! Isso é uma intrujice do capitalismo!». Sabia lá eu o que ele estava a dizer… Mas o avô lá continuava a dizer que Lua estava muito longe e ninguém conseguia lá andar em pé! Eu dizia-lhe que sim, que tinha razão, pois claro! Então como é que se podia ir à Lua se ela está lá sempre tão alta! Rematava sempre: «Ó Lua que vais tão alta, redonda como um tamanco… Ó Maria traz cá a escada que não chego lá com o banco!» e ria-se, muito! E eu também me ria, sem perceber nada, mas ria, muito.


«Olha o céu lá no fundo do chapéu.

Olha o sol e a lua a namorar.

Olha o céu lá no fundo do chapéu,

onde tu e eu vamos chegar.» (ver NOTA)

A casa da avó ficava na ladeira de Gil Pais. Em vez de atalharmos logo pelas Escadinhas da Misericórdia, atravessávamos a Praça toda. Parecia comprida aquela Praça! Mas o avô queria tardar aquele passeio e eu não me importava nada! Íamos brincando nas ondas da calçada: «agora só se pode pisar o azul, agora o branco; agora ao pé-cochinho!» Que festa!
Lá do alto do terraço, mesmo ao ladinho do painel de Gil Pais, lá estava a avó. Carrancuda, como já nos havíamos habituado a vê-la! Gritava ela lá de cima: «Aviem-se!» O avô ficava logo em sentido. Agarrava-me ao colo e dizia: «Vamos, vamos, rapariguinha, que avó ralha com o avô. Xiça!» E lá ia eu no alto colo do grande avô, agarradinha ao seu pescoço esguio. Subíamos a ladeira em passo de corrida, puxávamos o cordel da porta vermelha de madeira e galgávamos a escadaria do quintal, até lá a cima, onde estava a avó.


NOTA: «Olha o céu lá no fundo do chapéu», do LP Zarabadim (música de Carlos Alberto Moniz; letra de José e Dulce Fanha). O disco vem na sequência do êxito programa infantil com o mesmo nome, transmitido pela RTP em 1985.

6 comentários:

*Pérola* disse...

:o

É pá, q isto é grande...

Melhor fazê-lo no conforto e silêncio do lar. (Estou no serviço...)

Força nisso.

BeijOoOOoOO

marga disse...

isto é para ler com calma.
esta é a primeira e remete para as minhas primeiras memórias da vila, das gentes da terra.os meus primeiros afectos. o meu primeiro amor: aquele avô, alto e de mãos firmes.

*Pérola* disse...

POIS!

Ainda bem q li tudinho só agora em casa...

Estou de lágrima no olho!

Estas "coisas" com os avós deitam-me toda a pose por terra...

LINDO.

Força nisso.

BeijOoOOoOO

marga disse...

obrigada, pérola!
vou publicar mais. fica atenta ao blog.
Sim, estas primeiras memórias de infância trazem todo o mundo dnetro delas. É um privilégio poder saber como era o colo do meu avô. É uma sorte poder ter visto esta terra do alto do seu metro e noventa.

*Pérola* disse...

:)

Que lindo!... Força nisso.

Venho cá diariamente. (Praticamente)

Então e para quando essas memórias editadas?! humm?!...

BeijOoooOOO

marteodora disse...

Percebo agora a foerta do teu pai. Toca a encher o caderno. Venham de lá mais memórias.
Gostei muito. É um exercício muito bonito.