9.9.10

2_O raiar do sol na Nazaré

Nasci em Janeiro e fui pela primeira vez à praia em Julho desse ano. A primeira praia que conheci foi a praia da Nazaré. Foi o meu primeiro amor e, como se costuma dizer, não há amor como o primeiro. Eu sabia que este amor não era só meu. Tinha de o partilhar com grande parte dos torrejanos – no Verão, esta era a praia eleita de tantos. Por lá se encontravam as mesmas caras que víamos cá: as vizinhas da barraca de praia eram as vizinhas do bairro de S.to António e as conversas que as senhoras faziam no café Império da vila, em época estival decorriam no café Oceano, na Praça Manuel Arriaga, na Nazaré.

Todos os anos o ritual se repetia. Preparava-se tudo com aprumo e rumava com a mãe da minha mãe durante os meses de Verão para a praia da Nazaré: eu, duas primas e a minha avó. O meu avô havia comprado uma casa lá, mesmo na praia do lado Norte, na Rua Três de Setembro, a do restaurante Tamanco. Era fácil lá chegar: no edifício que dava para a estrada estava desenhado um grande Tamanco indicando que era ali o tal restaurante e, além disso, ao início da rua havia um posto móvel dos correios, que, ao final do dia, se enchia de gente. Na altura não havia telemóveis e o posto móvel era a única possibilidade de comunicar com os que estavam na terra. Dali podíamos, mediante pagamento (claro), fazer telefonemas e enviar cartas ou postais ilustrados com as típicas «praieiras» de sete saias ou os carapaus a secar ao sol. À saída da praia e à noite (altura do dia em que as chamadas eram mais baratas), era ver o pessoal a fazer fila ao pé dos telefones. Por isso, era mesmo muito fácil dar com a nossa casa de praia, ninguém se perdia. A porta estava identificada com o número doze, mas era fácil reconhecer a casa pelo tanque verde que estava fixo na varanda.

A casa era uma típica habitação de pescadores. Dois pisos e um sótão. No primeiro piso a cozinha e a casa de banho; no segundo, a sala que era também o quarto. Mais tarde o meu avô aproveitou o sótão e ganhámos mais um quarto com uma vista singular, virada a norte, que dava para o Sítio, alongando-se sobre o casario (a norte e nordeste) e para o mar (a oeste) … A exiguidade da casa não significava falta de visitas e hóspedes. Ninguém se importava de dormir estendido num colchão, dentro de um saco-cama. Valia tudo para passar uns dias na Nazaré.

Quando a minha mãe lá estava, de manhã, íamos (bem cedo) para «as rochas» apanhar tudo o que mexia e o que não mexia também! Lapas, caranguejos, caracóis e estrelas-do-mar, pedrinhas e algas. Eu carregava tudo no meu baldito cor-de-rosa de plástico. Não posso esquecer o cheiro abundante a mar dessas manhãs. A barraca às riscas, as banhocas, a bolacha americana, as bolas-de-berlim, os geladinhos tirados da máquina que desenhava a chocolate e baunilha uma cornucópia sobre o cone de uma bolacha já meia mole… doces recordações da praia da Nazaré. À noite, depois do jantar, vestia-se um casaquinho e calçavam-se as sapatilhas e saímos, como tantos outros, para o passeio na calçada à beira-mar. Não havia nada como saltar para as cavalitas do meu pai e observar a multidão que por ali andava. Com o meu pai, fazia também longas caminhadas da praça dos cafés até ao Sítio e do Sítio à Praia do Norte. Ficava ali, com o meu pai e com a minha mãe, naquela inóspita e longa praia de areia rugosa, a contemplar o mar, o brilho do sol... Ficávamos assim tempos infinitos (acho que ainda lá estamos!).

Eu corria a «praia» de norte a sul. Conhecia as ruelas estreitas e as vielas que iam dar à padaria, à mercearia, à Oficina (um tasco onde se ia buscar sopa)… Eu ficava quase sempre encarregue dos recados e não me importava nada! A experiência que adquiri nestas voltas servir-me-ia, anos mais tarde, para guiar as minhas amigas nas férias grandes que ali passávamos.

Nesses anos, já os anos noventa iam a mais de meio, a praia da Nazaré ganhava outras cores e tons que antes não conhecia. Éramos adolescentes e os pores-do-sol tinham agora outra magia. Eu e as minhas amigas íamos de Torres Novas para a Nazaré de autocarro. Era um longo percurso que durava quase o dia todo, com direito a transbordo em São Jorge e uma paragem para fazer chichi em Alcobaça. Mas, mesmo assim, em meados dos anos 90, a Nazaré era a nossa praia, sem dúvida!

As manhãs eram de preguiça, as tardes de praia e as noites de animação. Depois do jantar dávamos sempre as nossas voltinhas pelos cafés e parávamos com frequência numa discoteca lá do lado sul, perto do «molho». À saída da discoteca, rumo a casa, havia tempo para parar na roulotte dos cachorros quentes (na época era uma carrinha daquelas a que chamam «pão de forma» da volkswagen). Às vezes, ainda íamos buscar bolos e pão quente à padaria da Rua Cimo de Vila. Mas, outras vezes, esperávamos, tão simplesmente, o nascer do sol no lado leste da vila. Éramos jovens e acreditávamos que o quando o sol nascia era para todos, que impossível era aquilo que nunca tentáramos fazer e que aquele era apenas o primeiro dia do resto das nossas vidas.



«Enfim duma escolha faz-se um desafio

enfrenta-se a vida de fio a pavio

navega-se sem mar, sem vela ou navio

bebe-se a coragem até dum copo vazio

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida



E entretanto o tempo fez cinza da brasa

e outra maré cheia virá da maré vazia

nasce um novo dia e no braço outra asa

brinda-se aos amores com o vinho da casa

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.»*

*«O primeiro dia» tocava na nossa aparelhagem portátil da Sony (tão na moda!), com leitor de compact discs. Era a faixa 4 do CD Noites Passadas (ao vivo), 1995, de Sérgio Godinho.


4 comentários:

marga disse...

obrigada pelos comentários que me têm enviado para o mail. Mas não se acanhem, podem deixá-los aqui mesmo.
Abraço

José Ricardo Costa disse...

A crónica da Nazaré tem tanto de kitsch como um crocodilo de voador. Nada. Um bom texto de memórias, simultameamente descritivo e afectivo. Uma dose certa de nostalgia, ou seja, sem cair na lamechice e numa emotividade artificial. Eu, como indefectível "nazareno", gostei muito de ler.

*Pérola* disse...

:)

Bendito caderninho q t ofereceram!!!

Força nisso.

BeijOoOOoOO

marteodora disse...

Toda a gente sabe que da Nazaré gosto da caldeirada, do cheiro a mar e pouco mais. Porém, "os geladinhos tirados da máquina que desenhava a chocolate e baunilha uma cornucópia sobre o cone de uma bolacha já meia mole" fazem parte das coisa que mais gosto na vida. Portanto, cara Marga, esta fantástica crónica teve o condão de colocar mais uns pontos a favor da Nazaré, no coração desta devota do Algarve.
Keep going.