10.9.10

3_Romaria de sexta-feira à tarde (FAME)


Treze anos, muita energia, muito riso e pouco siso!

Os dias eram passados na galhofa, entre as aulas e os intervalos cheios de risinhos marotos entre rapazes e raparigas. Os pavilhões provisórios da Escola Maria Lamas eram o palco das loucuras já pouco ingénuas e das gargalhadas tão intensas, ora porque o peixinho vermelho tinha morrido e a stôra nos dera um chocolate para amenizar a nossa dor, ora porque a stôra de Ciências trazia um tailleur rosa que era um mimo… tudo era motivo para gargalhar, para chorar a rir, às vezes até sem motivo.

Às sextas-feiras à tarde estava no horário a disciplina de Educação Visual. À partida, nestas aulas aprendia-se a ver o mundo e a descrevê-lo graficamente. Mas o mundo estava lá fora e as ovais e ovos feitos com compasso e esquadro em pouco correspondiam ao mundo, à terra, aos sonhos que se pintavam ainda em cores garridas e tão bruxuleantes.

Por isso, a aula de sexta-feira à tarde era muitas vezes substituída por uma aula prática, por nós “inventada”, chamada disco. Às três da tarde era hora de começar a arrumar a tralha para rumar à Fame, a discoteca do Sr. Fausto, que ficava em Valverde, ali ao por detrás da igreja de Santiago, na Rua de Santiago (em tempos chamada, precisamente, Rua de Sant’Iago Debaixo). O Sr. Fausto fizera da garagem da sua casa uma estupenda discoteca e às sextas-feiras à tarde decorriam as matinés. Super-concorridas! Vinha gente do Entroncamento, da Golegã, da Chamusca… parava lá tudo! Era uma espécie de melting pot da província! Para quem andava na Escola Maria Lamas era a oportunidade de encontrar a rapaziada da Escola Nº 2 (depois chamada de Artur Gonçalves). Na altura, a Escola Maria Lamas era frequentada, sobretudo, pelos meninos da cidade, e a «Número 2» era povoada pela malta que vinha das aldeias. Que melhor local para intercâmbios culturais se não a Fame?

Ora, então, seriam aí umas três e meia da tarde e lá começava a romaria para a Fame. Pela rua, palhaçadas, risadas e risinhos entre as meninas, olhares indiscretos dos meninos… Nesse dia, vestia-se a melhor roupa e os cabelos tinham de estar impecáveis (rebeldes e revoltosos como nós próprios)! Chegadas à porta, era a ver quem entrava primeiro, quem conseguia espreitar: «Ai, está cá Fulano! Ah!!»… A impaciência para saber quem estava, quem viria esta tarde... Nesta altura os namoricos já começavam a aquecer as tardes e importava saber quem estaria lá, para adequar as palavras que se haviam de dizer. É que além do «Posso-te conhecer?» da moda, havia depois que fazer conversa…

Entrava-se, por fim… Uau! Primeira sensação: «Não vejo nada!» A luz do Sol lá de fora havia-nos cegado e, perante a escuridão da sala, não se via nada! Só vultos. Quando o negro começava a dissipar-se e as imagens se tornavam mais nítidas, podia-se finalmente usufruir do ambiente da Fame. Sofás vermelhos de veludo, espelhos nas paredes, chão preto, bolas de espelhos… Que coisa magnífica para umas miúdas de treze anos que o queriam era sentir, emocionar-se e viver! E ali sentia-se. Sentia-se a música, o calor dos corpos na pista, o suor das mãos dos rapazes quando nos cumprimentavam e emocionávamo-nos em namoros ali começados e acabados, entre uma coca-cola e uma música dos Offspring ou dos Green Day…



«I heard you crying loud,
all the way across town
You've been searching for that someone,
and it's me out on the prowl



As you sit around feeling sorry for yourself
Don't get lonely now
Dry your whining eyes
I'm just roaming for the moment
Sleazin' my back yard so don't get so uptight
you been thinking about ditching me




No time to search the world around
Cause you know where I'll be found
When I come around

I heard it all before
So don't knock down my door
I'm a loser and a user so I don't need no accuser
to try and slag me down because I know I'm right



So go do what you like
Make sure you do it wise
You may find out that your selfdoubt means nothing
was ever there
Bridge



You can't go forcing something if it's just
not right

No time to search the world around
Cause you know where I'll be found



When I come around
When I come around»*



Lá para as seis horas, tínhamos que zarpar dali. Era hora da mãe chegar a casa e ninguém podia dar conta que havíamos passado a tarde na Fame. Quando saíamos, o Sol já ia baixo, mas ainda fazia impressão nos olhos. Agora, era preciso meter a irreverência dessa sexta-feira no bolso e correr para casa com ar de menina bem comportada que sabe usar um compasso e que não se perde em padrões multicolores.

Durante a semana a conversa na escola era sobre aquilo que se vivera na sexta-feira. Na próxima quinta-feira começávamos a pensar como seria a sexta que havia de vir. Marcavam-se os encontros e desmarcavam-se os compromissos agendados, como eram as aulas de Educação Visual. Vivíamos para aquelas sextas-feiras de Fame onde realmente éramos educadas para o mundo que nos rodeava: víamos e sentíamos o mundo dentro daquela garagem que o Sr. Fausto transformara em discoteca de emoções.


*«When I come around», o single mais popular da banda norte-americana Green Day, tocava em 1995 sem parar nos nossos rádios e, obviamente, nas discotecas.

1 comentário:

Roxa disse...

Grandes tempos! E o quero-te conhecer é muito bom!