15.9.10

Crónicas torrejanas _ 4_ O JOTA


Rua da Levada, logo ali como quem sobe à Travessa da Esperança, ai ficava o Jota. À porta, um papagaio estridente preso a um pedestal prateado: «Olá! Olá!». Dizia o bicho com aquela voz rouca de papagaio engasgado sempre que lá entrávamos. Não se podia passar despercebido ali, o animal dava logo sinal! Entrando no estabelecimento, lá estava o senhor Jota (nunca soube como se chamava na realidade!). Alto, de bigodes negros. Por detrás dele, em display na parede, havia de tudo: isqueiros, medalhas, pratos, umas colecções de copos e outras mais, uma quantidade incrível de tralha que nunca percebi de onde vinha nem quem a quereria comprar. Estava lá também o kit das bolas de snooker, fechado à chave até que alguém pagasse para jogar (jogava-se na sala anexa, cujo acesso se fazia por ali mesmo descendo apenas uns degraus), e estava, naquela parede, aquilo que nós desejávamos: o cigarrinho avulso! Para os jovens inconscientes como nós, para quem a vida não tinha fim e o início era o dia de hoje, o cigarrinho avulso era uma conquista! Já não me lembro a como é que estava o cigarro na época (talvez uns 10 escudos), mas era certo que ficava muito mais barato do que desembolsar quase toda mesada num maço! Também para o que se fumava, chegava bem! Aquele era o cigarrinho do estilo, nada mais.


Mas, o melhor do Jota era lá em cima. Esta casa de culto da juventude torrejana dos anos 90 tinha, no piso superior, uma sala de jogos bem apetrechada. Aqui havia todas as máquinas da moda: Bubbles, Metal slug, Tetris, Street fighter, Pang, Shinobi, Pac-man… não faltava a velha D. Elvira e a clássica Juke Box para dar música à malta. O acesso ao Jota (lá de cima) fazia-se pela Rua Tenente Valadim, ali mesmo em frente à mercearia da D. Maria da Luz, num pequeno largo improvisado onde os rapazes estacionavam as suas motas, que faziam a delícia das miúdas. O tipo da XT, normalmente levava a melhor, claro! A mota era das mais barulhentas, o que significava que todas olhavam e até estremeciam quando ela arrancava! Havia depois uns mais franzinos com as suas Macal (esses era raro safarem-se) e os da “classe média” que já se apresentavam de DT. Todos motociclos de categoria superior (e seus donos) eram, obviamente, tidos em conta na observação apurada das miúdas que por aí rondavam.

O Jota (o estabelecimento, claro!) tinha má fama. Mas, na realidade, o que ali se passava nada tinha de mal. Eram as vidas de putos de 15 anos (uns mais novos e uns mais velhos), as «normais irreverências» de quem ainda pouco se entretinha em casa com os jogos de computador, ainda débeis na época, e que ali procurava a adrenalina e alienação que as máquinas do salão de jogos lhes podiam oferecer.

Em meados dos anos 90, o computador ainda não nos prendia em casa, eram poucos os que tinha dito Ok computer. Aliás, eram poucas as razões para ficar em casa. Só a música, bem alta, nos detinha entre as quatro paredes dos nossos quartos e nos deixava paranóicos, uma vez que não a podíamos levar para a rua, os headphones dos anos 80 tinham caído em desuso e não estava na moda usar nada nas orelhas, só furos para brincos (para elas e para eles).


«Please could you stop the noise, I'm trying to get some rest

From all the unborn chicken voices in my head

What's that...? (I may be paranoid, but not an android)

What's that...? (I may be paranoid, but not an android)»*

*«Paranoid android» é um dos singles mais populares do álbum Ok Computer, lançado em 1997 pela banda inglesa Radiohead. Entre o rock alternativo-experimental, na onda do post-grunge e do electrónico, os Radiohead ganharam fama pelos seus temas sobre a alienação dos tempos modernos.

8 comentários:

juanita disse...

O tipo da XT, eh eh...
Muito boa a crónica. Estava a ler e a ver-me entrar no Jota, a medo, a pedir uns cigarritos. Se não me engano os cigarros eram 20 escudos cada.
bjs, Joanita

Maria Teixeira disse...

A juke box era o máximo, lembro-me de estar a jogar snooker, a fumar o tal cigarrito e a ouvir "Thunder" dos AC/DC como se fosse a minha música favorita, eu que até nem os gramava. O papagaio era o terror, tinha um medo que me pelava, portanto ali não entrava, e alguém tinha de comprar os cigarros para mim. Belos tempos, tenho saudade.

Maria Teixeira disse...

Muito bom, aquela juke box bombava o Thunder dos AC/DC como se fosse a melhor música de sempre.

marga disse...

eheheh, juanita!
20 escudos! O que são hoje 20 escudos!

marga disse...

Maria TEixeira (Nanda),
AC/DC??? LOL Não te imaginava a ouvir essas cenas LOL LOL mas agora que falas nisso... já consigo ver-te encostada à parede com o cigarrinho e a tripar bué! Eeheheh

marga disse...

Obrigada pelos coments. Está a ser mesmo giro partilhar estas memórias convosco (com os que comentam aqui e com os que l~em e não comentam).
Desculpem as crónicas terem sido publicadas sem qualquer trabalho de revisão e/ou editing. Foi assim, em bruto!

Ricardo disse...

Os cigarros eram a 15 escudos! Certeza absolutíssima. E a jukebox só pecava pela falta de escolha musical: ainda me lembro do desgosto que foi ler lá Pearl Jam com os conhaques e afinal o que lá estava escrito era The Jams. Os AC/DC, no meio daquilo que lá havia eram uns senhores - eu também não era grande fã.

Eu já tinha dado o meu OK ao computer, mas não havia como ir fazer uma jogatana ao Jota. E sem esquecer os incríveis jogos de matraquilhos na sala lá em baixo. A proficiência era tal, que nem as muitas cervejas e/ou bagaços que nos acompanhavam antes de lá entrar nem faziam grande diferença.

marteodora disse...

Bem...a imagem da Nanda, de cigarro na mão, a dar umas tacadas ao som de THUNDER!...eh,eh,eh. Que pena não ter sido afortunada ao ponto de frequentar o Jota.
Para os lados de Abrantes (onde passei os anos da adolescencia) também há destes locais de cultos, nos quais também fiz algumas figurinhas (com cigarrinhos e sem cigarrinhos, eh,eh,eh)...
Pessoal, quando os nossos filhos chegarem a essa idade já não nos enganam. só se nós deixarmos, LOL!
Belas crónicas Marga!