20.9.10

Crónicas torrejanas _ 5 _ No morro do castelo


No morro do castelo, do lado que dá para o rio Almonda, havia em tempos um banco em pedra. Ficava ali mais ou menos perto da porta que daria para o Porto dos Surdos. E ainda bem que seriam surdos os que por ali andavam, é que no banco do morro muitas histórias e peripécias de amor aconteciam, tantas juras, tantas brigas e tantas “pazes” feitas.

O caminho para lá chegar era tortuoso e sinistro. Era preciso circundar a fortaleza à boa maneira medieval, entre a mata, bem agarrada a um qualquer príncipe ou cavaleiro sem cavalo. O trilho já estava marcado no chão cujas ervas, de tanto serem pisadas, haviam já desistido de ali nascer.

Chegados ao banco, os casais enamorados ali ficavam, olhando o dorso da serra, o rio e o casario. Os beijos surgiam entre as brisas que vinham do lado do mar e as juras de amor eram trocadas no calor dos verões quentes da província.

O local era de tal forma apetecível que, muitas vezes, quase se fazia fila para ocupar aquele banco. Entre o banco do morro e o cruzeiro do adro do Salvador, quase todos escolhiam o banco. O cruzeiro tinha a sua graça e foi palco de namoricos famosos cá na terra nos anos 90, mas, a certa altura, os seus hóspedes deixaram de pensar no amor, esqueceram o rock n’roll e passaram a dedicar-se às drugs…

No banco do morro, as coisas mantinham-se mais bucólicas e o romantismo da folhagem verdejante e do leito lento do Almonda deixava aos amantes espaço quer para longas divagações amorosas, quer para encontros mais fugazes. Encostados às pedras medievais do castelo e inspirados pelos ares da Serra de Aire, os enamorados debitavam entre si frases kitsch, chavões pouco autênticos, enfeitados com palavras das quais mal sabiam o significado. Afinal, os corações queriam saltar de dentro do peito, as mãos transpiravam, todo o corpo estava em chamas e nem a frescura vinda das bandas de Aire e Candeeiros os podia salvar daquele fogo no qual se lançavam furtivamente.



«You know that it would be untrue

You know that I would be a liar

If I was to say to you

Girl, we couldn't get much higher

Come on baby, light my fire

Come on baby, light my fire

Try to set the night on fire»*

Come on baby light my fire», 1967, The Doors. Em 1991, Oliver Stone lançou o filme The Doors, onde Val Kilmer desempenhava o papel de Jim Morrison. Desde a morte do vocalista dos The Doors que se vivia uma fase de pós-Doors, de culto da personagem Morrison, da sua rebeldia, liberdade e loucura. Muitos eram os que mantinham ainda os posters dos The Doors nas paredes do quarto e eram imensos os que liam religiosamente a poesia alucinada de Morrison.

1 comentário:

*Pérola* disse...

:)

Palavra de honra q eu ainda n percebi o pq destas crónicas n estarem devidamente editadas!...

N és tu uma torrejana q s preze?! Isto devia ser considerado patromónio cultural!...

Muito bonito.

Força nisso.

BeijOoooOOO