28.9.10

Crónicas torrejanas 6_ A Escola Secundária Maria Lamas

foto retirada daqui

Fui aluna da Escola Secundária Maria Lamas durante 6 anos, desde o ano lectivo 1993/94 ao ano lectivo 1998/99. Entrei lá com 11 anos e saí com 17. É impossível não guardar as melhores memórias desta escola!

A escola era conhecida como «a Escola Nº 1» (por oposição à nova escola construída nas Chãs, designada como Nº 2, mais tarde Artur Gonçalves) ou «a Maria Lamas». Na «Maria Lamas» andavam os alunos da cidade e, na Nº 2, os das aldeias (isto assim dito à pressa e generalizando, claro!).

Ir para «a Maria Lamas» era um sonho. Sair do Ciclo e poder ir para o pé dos “grandes” era uma conquista. Entrar na «Maria Lamas» pela primeira vez foi uma revelação. A geografia da escola definia a estirpe dos seus ocupantes. O edifício cor-de-rosa, o primitivo, estava guardado para os «grandes», a malta do décimo, décimo primeiro e décimo segundo ano. Para os «putos» estavam reservados os barracões ou galinheiros, como eram conhecidos os pavilhões provisórios construídos no pátio da escola.

As áreas de lazer estavam igualmente definidas pelos seus “habitantes”. A “zona alta” dos galinheiros, mais propriamente no barracão da associação de estudantes, era frequentada pelo pessoal da associação que eram os mais velhos (de um modo geral pessoal do grunge, do rock e do metal) e, para mim, os mais giros (era um sonho vê-los passar com o capacete da mota pendurado no braço)… Na zona das oficinas juntava-se, frequentemente, um grupinho das Tufeiras, que além deste tinha outros pousos. Na parte que fazia a ligação entre o bar (que ficava do lado dos galinheiros, no alinhamento das oficinas) e o edifício principal da escola, havia uma passagem – que mais não era do que um grande alpendre – que tinha um pequeno cubo incorporado nas escadas (uma coisa que terá sido ocasionada pela necessidade de elevar o piso durante a construção dos degraus). Graças a esse cubo, esta zona de passagem ficou conhecida como «o quadrado». «O quadrado» era o sítio mais in da escola), bem à moda do Beverly hills 90210. Era só gente de bem (e os que assim queriam parecer) que ali parava, os designados «betos». Além destes, e como aquele era um local de passagem, eram muitos os que nos intervalos se misturavam naquele alpendre: uns a comer, outros a fumar, outros a passar para ir para as aulas. Quando, por acaso, tínhamos alguma aula no edifício principal, fazíamos questão de passar pelo «quadrado», só para ver, claro, porque nessa altura ninguém olhava para nós.

Anos mais tarde, já o «quadrado» havia perdido o estigma dos «betos» e tinha-se tornado uma zona mais democrática, também eu e os meus ali parámos. No entanto, eu pertenci a um grupo de alunos que foi «expulso» da escola por falta de espaço! No ano lectivo de 1996/97, os alunos de Humanidades (que era o agrupamento em que eu me inseria) foram mandados para o edifício do antigo ISLA (que também já tinha sido o centro de saúde), que ficava ali perto da escola, na Rua do Jogo da Bola. Todavia, em todos os intervalos seguíamos para «a Maria Lamas» e passávamos esses escassos 10 minutos com os nossos amigos e namorados das outras turmas dos outros agrupamentos. Não foram raras as vezes que partimos para passar lá o intervalo e não voltámos para a aula seguinte. Acontecia com mais frequência nos meses de Primavera, quando o sol começava a bater no campo de jogos e a malta se estendia lá a levar com a vitamina D. Claro que passados dez minutos ninguém tinha vontade de ir à aula de Latim e ficávamos, quais lagartixas, ao sol, a fazermos de almofadas uns aos outros. Aquelas tardes não tinham fim, se tinham não dávamos conta disso. A nossa adolescência era demasiado jovem e nós éramos diamantes brutos ao sol. Nenhum de nós imaginava que poderia morrer sem uma causa, sem ouvir as músicas que sempre desejara ouvir, sem cumprir os sonhos que se esboçavam na dormência das tardes que passávamos deitados ao sol no campo de jogos.



«It's so hard to get old without a cause

i don't want to perish like a fading horse

youth is like diamonds in the sun

and dimonds are forever

so many adventures couldn't happen today

so many songs we forgot to play

so many dreams are swinging out of the blue

we let them come true»*



As aulas no ISLA tinham o seu quê de especial, havia lá ao lado uns quintais com galinhas e patos que tornavam as aulas de francês mais divertidas. E da janela que dava para a Rua do Jogo da Bola sempre se podia ver quem passava e distrairmo-nos nas aulas de português e de inglês. Além disto, à porta do ISLA os meus amigos tinham sempre lugar para estacionar as suas motas, as Typhoon, a BWS e a DT, ficavam ali alinhadas à espera que os seus donos e respectivos penduras (como eu) saíssem com ganas de girar até ao Entroncamento ou qualquer outro sítio.

Do bar da «Maria Lamas» não consigo tirar do pensamento as napolitanas de chocolate (há quem fale também de uns cachorros quentes, feitos com uma baguette que estava entalada num ferro quente que fazia um buraco no meio do pão, onde, depois, se colocava a salsicha. Mas eu não comia cachorros…). Dos funcionários não posso esquecer o contínuo (que andava sempre um bocado encarniçado da bebida) que fez chichi no lavatório de um dos barracões onde tínhamos aulas no 9º ano.

Muito mais do que as aulas, a escola eram os professores, os colegas e, claro, os intervalos depois dos quais, como zombies, regressávamos para as aulas.

«In your head, in your head,

Zombie, zombie, zombie,

What's in your head,

In your head,

Zombie, zombie, zombie?»**



*«Forever young», 1984, Alphaville. Não era música que se ouvisse nos tempos da escola secundária. Só a descobri em 1999, quando fui para a faculdade. Desde então, este é o meu hino.
** «Zombie», música de protesto composta pelos irlandeses Cranberries. Foi um verdadeiro sucesso em meados dos anos 90, altura em que foi lançado o álbum No need to argue (1994). 

8 comentários:

*Pérola* disse...

:D

Apesar d n ter sido aluna da N.º 1 ou "Maria Lamas" revi muito do meu liceu nesta crónica.

A-DO-REI.

Eu comia os tais cachorros q eram espetados no meio do ferro para se poder lá enfiar a salsicha. ;P

BeijOoOooOOO

*Pérola* disse...

PS

Espero q continues a escrever!

Pq quando estas crónicas, q quero crer serem escrita "antiga", acabarem, preciso de continuar a cá vir beber as vivencias de TN. :)

Força nisso.

BeijOooOoOoOO

Helder disse...

Embora os meus anos "dourados" tenham sido os de faculdade, não posso deixar de gostar da doce nostalgia do teu texto.

living in london disse...

Bem!!!subscrevo tudo o que escreves.Eu estudei na Maria Lamas de 1990 a 1997 e adorei os anos que la passei.A descricao que fazes dos espacos e dos grupos que os frequentavam,era mesmo assim.Saudade e nostalgia depois de ler o teu post.

marga disse...

Obrigada pelos vossos comentários. Sabe bem partilhar esta nostalgia.
Living in london, estás mesmo a viver em Londres ou isso é só a brincar? Se sim, sorte por essas bandas!

living in london disse...

Sim,e verdade,estou mesmo a viver em Londres. :-))
Obrigada pelos votos de boa sorte!!

Rui disse...

Li o teu texto e fiquei com uma lágrima no canto do olho... Saí em 2004 da Maria Lamas e a descrição era mesmo essa que fizeste. O Contínuo Américo, as napolitanos, cachorros, campo de basket, quadrado, associação, as pinturas nas oficinas, etc. Saudades :)

Francisco Cordeiro disse...

tal e qual. tambem la andei desde 1995 ate ou seja desde os 12 anos ate a 2002. esses belos cachorros. bem me lembro deles e do cheiro das napolitanas a entrar pela sala a dentro dos galinheiros. boa descriçao. e digo vos mais. nao sei se foram à escola ultimamente. mas digo vos q em comparaçao ao nosso tempo ta vazia. os corredores quando era intervalo era um mar de gente, a perder de vista. mt bom mesmo. e os concertos no campo de futebol quand havia festas à sexta à noite.. Muito bom e que saudades. e "muro" lembram se? local para os charros lolol