9.11.10

discuros do Ribatejo

foto JJM; "oliveira"; charneca de alcorochel; 06.11.2010 


Eu sou ribatejana.


No meu Ribatejo não há touros, nem touradas. No meu Ribatejo há olival e figueiral.

Sou do Ribatejo da minha avó Preciosa e do meu avô Zé.

O meu avô nasceu na quinta da Marmela. A família do meu avô já lá vivia quando ele nasceu. Todos os seus irmãos nasceram na quinta. O meu avô era feitor da quinta, sabia de tudo sobre as árvores, as colheitas e os trabalhadores. O meu avô morreu quando eu tinha 6 anos. Nessa altura, eu não sabia o que era o Ribatejo, nem sabia bem quem ele era. Por isso, não tive tempo para lhe perguntar o que hoje gostaria de saber sobre a quinta, os trabalhadores, os campos e a vida do seu tempo. E assim, fiquei sem saber…

A minha avó nasceu nas Moreiras Grandes, lá para a ponta norte do concelho. Desde os seis anos que trabalhava, ora no campo, ora a servir em casa dos “senhores”. A minha avó conhecia a terra como ninguém (ou como todos do seu tempo e espaço), andava na apanha da azeitona, das passas, nas vindimas… Andou a apanhar figos grávida do meu pai e quase que dava à luz debaixo de uma figueira.

O meu pai (o filho da Preciosa e do Zé) e a minha mãe, cuja família paterna fazia parte dos ranchos de barrões vindos das bandas de Ansião, já pouco sabem do que se passa no campo. Mas gostam do cheiro e da calmaria dos ares campestres. Compraram terras na ponta mais a sul do concelho, mas o meu pai não gosta de lhes tocar. Ainda assim, o olival estende-se pelo terreno e as figueiras esgalgueiram-se, indiscriminadamente, pela terra amanhada por um vizinho que podia ser o meu avô.

Ao ver as árvores cobertas de fruto, não pude deixar de me envolver. Convocámos a família e fizemos a apanha da azeitona, o melhor que sabíamos, entre torrejanos e barrões. Fizemos renascer o espírito dos mortos em cada ramo de oliveira que ripámos. Aprendi que a terra faz-nos bem, abre o apetite e regenera.

Este é o meu Ribatejo. Esta sou eu.

7 comentários:

Anónimo disse...

Maravilhoso!...
Palavas sentidas.
Beijos
Tina

Anónimo disse...

De Ansião vieram os anciãos

O meu bisavô Simões também veio menino das redondezas de Ansião, Pombal.
Apesar de as memórias das suas origens terem sido veiculadas por estes anciãos, e já não ser possível encontrar quem ainda o faça, não conheço ninguém que identifique algum laço de parentesco ou familiaridade mínima para aqueles lados.
As antecessoras e desconhecidas histórias de família dos nossos avós barrões transformaram-se, para nós, quase num mito de origem. :) "no tempo em que se viajava à procura de trabalho, o meu bisavô veio de uma família de barrões de Ansião", em tempos imemoriais...

André Lopes

*Pérola* disse...

:D

BeijOoOOoOO

Anónimo disse...

Quinta da Marmela, a sério?!?

Ainda somos parentes! Parentesco longíquo e atravessado! :)

Drazdi disse...

Bom artigo!
A Quinta da Marmela :), rico nome! De facto é engraçado, temos tanto a aprender com as gerações passadas mas quase nunca nos importamos com isso, apenas começamos a dar algum valor quando a maior parte das vezes essa aprendizagem já não é possível, pelo menos dessa forma. Temos no entanto sempre a possibilidade de "meter as mãos na massa" e pelo menos experimentar, sentir e vivenciar aquilo que outros falavam e nós muitas vezes não acreditávamos!
Uma vez cheguei a apanhar figos secos na fazenda do Xico, e não é que demorava que se fartava para encher um balde, raio dos figos eram bem pequenos :)!
É isso mesmo "A Terra faz-nos bem, abre o apetite e regenera", afinal todos nós vimos dela e para ela regressaremos um dia ;)! bjs Idzard

-pirata-vermelho- disse...

Você com este texto dá dez d'avanço à escrevedura do nobel finado - pela propriedade da língua, pelo encanto...
mas pela autenticidade!
(que é coisa que ele não tinha)

marga disse...

André Lopes, tens razão estas narrativas tornam-se quase mitos identitários que nos ajudam a moldar uma desejada construção de encaixes do nosso eu.

Anónimo, talvez sejamos parentes... revele um pouco mais da história da sua família. Vamos ver se há intersecções :)

pirata-vermelho, agradeço o comentário.