18.1.11

Crónicas torrejanas 9_A PRAÇA

foto AHMTN

A Praça de que se falava sempre era, está claro, a do 5 de Outubro.

Sentadas num banco qualquer, conversávamos toda tarde, desde a hora em que o sol a pique não fazia sombra, até à hora em que a passarada rasgava o céu em corrupio entre as árvores frondosas dos canteiros do tabuleiro da Praça e os sítios que só eles conheciam. Havia sempre conversa, sabe-se lá porque razão, mas, na verdade, não se esgotava.

Na Praça estávamos nós, mais uns quantos velhotes nuns bancos mais além. Estavam também uns casais na esplanada do café Castelo. À noite, era a rampa da Travessa do Correio Velho que se apinhava. A malta ficava ali na converseta, sentados nas escadinhas que ladeavam a rampa, a ver quem entrava e saía do Castelo pela porta da zona do bar.

Era comum dizer-se «Encontramo-nos logo à noite na Praça» ou «Vais à Praça hoje?». A Praça era o local de encontro para os jovens da década de 90. Não que houvesse ali algum clube ou discoteca (como hoje existem), não havia nada além do café Castelo. Era, simplesmente, o ambiente: gente jovem na rua, a trocar conversas, olhares e muitos risos. Bebia-se um copo ou ia-se ao Léu buscar cerveja para ficar ali na rua a conviver. E éramos capazes de passar assim, ali, de pé ou sentados no chão (ou num banquito), toda a noite, que é como quem diz, até à hora em que estávamos autorizados a estar na rua, claro! Era óbvio que os mais velhos ficavam sempre até mais tarde…

A Praça que já tinha sido dos Paços do Concelho, do Comércio, de D. Manuel II, era agora a nossa Praça. Todos tinham lugar lá, cabia sempre mais um e não havia códigos nem convenções para ali estar. Não se pagava nada, era a verdadeira praça pública onde a nossa vida privada se começava a construir. Naquela altura, os amigos eram o que mais importava e a Praça era o sítio onde todos se encontravam. Cada um aparecia à sua maneira, sem convenções nem condições.

«Come
as you are
as you were
as I want you to be
as a friend
as a friend
as an old enemy
take your time
hurry up
the choice is your
don't be late
take a rest
as a friend
as an old memoria
memoria
memoria
memoria»*

* «Smell liketeen spirit» é a faixa de abertura do segundo álbum da banda norte-americana Nirvana, lançado em 1991, intitulado Nevermind. Este álbum chegou ao top de vendas em 1992, colocando o grunge/rock alternativo da linha mainstreem e conquistando milhares de fãs por todo o mundo. Em 1994, o suicídio de Kurt Cobain, vocalista da banda, com apenas 27 anos, fascinou os jovens da época e tornando-o num dos seus ídolos.



2 comentários:

Drazdi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Drazdi disse...

Ir ao Léu buscar cerveja era sempre engraçado mais que não fosse para ver os ovos que lá estavam... lá estavam...à espera de serem comidos por alguém! Muitas vezes a cerveja não chegava a sair de lá, nem a cerveja nem quem a comprava...e o tempo passava!
A Praça dava para todos, às vezes parecia deserta outras vezes não havia bancos para todos...quem não tinha banco ficava de pé, o importante era o pessoal estar junto. A minha gente costumava perder-se tb pelo anexo do café castelo onde o Miguel às vezes lá metia os meus CDs de GUNS N' ROSES ;)!