22.2.11

CRÓNICAS TORREJANAS _ As «Festas da Cidade»



Em Julho de 1985, Torres Novas constituía-se, oficialmente, como uma cidade. Um ano depois, em Julho de 1986, a data foi celebrada com as primeiras «Festas da Cidade»: umas festas como nunca houvera cá no burgo e que se viriam a repetir, todos os anos (até hoje, embora noutro local e com outro nome), pela mesma altura do ano.

Artistas vários da moda – uns consagrados (Pedro Barroso, Ritual Tejo, Rádio Macau, Xutos & Pontapés, Gaiteiros de Lisboa…), outros que lançavam os seus primeiros trabalhos e precisavam de ser mostrar (Quinta do Bill, Sitiados, Primitive Reason, entre tantos outros) –, momentos de rock e metal (promovidos pelas bandas de garagem cá da terra), recantos de jazz ou música mais erudita, durante uma semana davam vida à cidade que de arte e música pouco sabia e muita curiosidade sentia pelas novas que vinham de outras paragens. Talvez por isso (e porque as festas conjugavam performances mais eruditas com outras de cariz mais populares) os torrejanos acorressem em peso às iniciativas promovidas pela Câmara durante as Festas da Cidade!

O palco era a Praça 5 de Outubro em torno da qual se levantavam barraquinhas de comes e bebes que laboravam pela noite dentro até de madrugada. Todas as ruas iam dar à Praça e em tempo de «Festas», era certo que assim seria! A curiosidade em ouvir e ver os artistas era tanta que a Praça enchia-se de gente e era difícil alcançar os artistas no palco. Para mim, o melhor lugar para ver os espectáculos era sob a latada do terraço da minha avó, que morava na Rua de Gil Pais e tinha uma grande varanda que dava para a Praça 5 de Outubro.

O ambiente das festas da cidade era único. Era como se, pela primeira vez, Torres Novas se abrisse aos palcos das artes e da cultura. Imagine-se um país onde a cultura acontecia em Lisboa: os espectáculos, as exposições, os concertos… E, um dia, começa a ser possível trazer à nossa cidade – que nos anos 80 ainda estava tão longe de Lisboa (não esqueçamos que a A1 só foi inaugurada em 1991!) –, uma vez por ano, os artistas que víamos na TV e ouvíamos no rádio e nos discos. As «Festas da Cidade» representaram uma revolução na vida cultural torrejana. A semana das «Festas», pelo menos nos anos 90 (os da minha adolescência), era um acontecimento. Não se podia perder, ninguém queria perder! As pessoas marcavam férias ou para antes ou para depois das «Festas»; os jovens que estavam na universidade faziam questão de vir à terra para assistirem às «nossas Festas». Muito naturalmente, as «Festas da Cidade» foram-se constituindo como um símbolo da identidade dos torrejanos das gerações de 70/80’s, que durante as «Festas» das décadas de 80 e 90 viviam o auge da sua adolescência e puderam vibrar com os concertos, aproveitar as noites de Verão nos bancos de madeira das tascas, entre umas imperiais e umas sangrias, um pão com chouriço e umas moelas.

Após uma semana de ebriez cultural, a última noite de «Festas» culminava num espectáculo de fado de Coimbra (que se fazia na escadaria da igreja do Salvador ou na da entrada do castelo) e naquele que era o momento alto da semana: o rebentamento dos fogos-de-artifício. Lançados do castelo, os fogos rasgavam-se no céu da cidade em efeitos pirotécnicos amarelos, verdes, azuis, uma inebriante conjugação química que extasiava a multidão apinhada no tabuleiro da Praça e nos largos e ruas adjacentes. Havia anos em que nas torres do castelo se desenhavam palavras como Torres Novas e o próprio ano (1990 ou 1995, por exemplo) com luzes ou com fogos. O foguetório era empolgante, principalmente porque, nessa altura, a segurança destes espectáculos não era tão cuidada quanto é hoje. Havia sempre o perigo de incêndios nas imediações do castelo e o risco de ser atingido por uma das canas que caíam do céu após o rebentamento da pólvora no ar. Na Praça, era vê-las a chover sobre a população! A minha avó, na noite do fogo-de-artifício, passava sempre vistoria ao quintal com medo que algum resto de pólvora estivesse por ali a arder. Nessas noites – pelo sim, pelo não («Não fosse o diabo tecê-las») – regava, pormenorizadamente, o quintal antes de se deitar.

As primeiras «Festas» (de 1986 e até ao final dos anos 90) foram, indubitavelmente, o marco cultural da cidade de Torres Novas. Numa época em que a difusão cultural se fazia com dificuldade e a informação só chegava àqueles que verdadeiramente a desejavam, através dos jornais, dos discos (comprados em primeira ou segunda mão), as «Festas» eram para os jovens de 80’s e 90’s uma espécie de click no youtube dos dias de hoje. Após o download colectivo, íamos para casa com a emoção de ver os artistas aos saltos no palco (e dentro de nós) e com aquela música maluca nos ouvidos. E adormecíamos assim, entre os segredos das noites das «Festas» e a flutuar nos altos e baixos da certeza de que a cidade estava a mudar (e nós também).

«I’ll sing myself to sleep
A song from the darkest hour
Secrets I can’t keep
Inside of the day
Swing from high to deep
Extremes of sweet and sour
Hope that God exists
I hope I pray
Drawn by the undertow
My life is out of control
I believe this wave will bear my weight
So let it flow
Oh sit down
Sit down next to me
Sit down, down, down, down, down
In sympathy»*

Sit down» é uma das canções mais populares dos britânicos James. Gravada em 1989, esta música acompanhou os jovens dos anos 90, do início ao fim da década. Acredito que ainda hoje toque nos leitores sofisticados de Mp3/4 e gadgets afins daqueles que eram os jovens daquela época.

4.2.11

árvore das romãs

museu do holocausto; berlim; verão 2008

Para os judeus as romãs estão presentes nos rituais de passagem do ano e são associadas à crença de que o ano seguinte será melhor que o anterior.
Por tantos motivos, hoje só podia fazer este post: a árvore de romãs do museu do holocausto (Berlim) carregada dos desejos de todos os que por ali passaram.