18.7.12

um conto meu

abril 2012; ao bom-amor, em torres novas; foto do elvis


 ABRE A FELICIDADE

“Faz-te à vida, meu rapaz!”- diz o avô, com segurança. Voz firme e de certo modo dura. Para ele não há lugar para pensamentos tristes ou menos positivos. A vida é para ser vivida e isso implica puxões, repuxões, trambolhões e muitos outros ões como corações (às vezes partidos), brincalhões (como os miúdos) e sensaborões (como os chefes, os patrões, os políticos…). O avô sabe disso. O avô sabe quase tudo e o que não sabe finge saber.
Olha-o nos olhos, com coragem viril, enfrenta o neto que nas suas recordações se amedronta nos braços da mãe, ainda enroscado entre uma golada de leite e uma fralda pouco cheirosa. Hoje faz 25 anos. Acabou o curso de engenheiro e é um rapaz de 1,90m que calça o 44 e não tem dificuldade em arranjar namoradas.
Hoje é um dia especial. O avô está cá, estão cá todos, aliás.
Cantaram os parabéns. Comeu-se o bolo. Era grande em forma de capacete, como os dos engenheiros, todo feito de ovos e amêndoas.
Durante uns minutos bem longos, o avô desapareceu. Escondeu-se no quarto da Ritinha, entre a casa grande das bonecas e o armário. Estava lá sentado, a matutar. Passou-lhe pela cabeça o filme completo da sua vida: as correrias ribanceira abaixo com os putos da Cova dos Dragões, o lugar onde tinha nascido e onde vivera até aos 12 anos, idade em que partira para a casa do sôtor Vilhena de Carvalho; recordava os quartos amplos da casa do sôtor, as vinhas, o cheiro bom das meninas que serviam lá em casa, os torrões de terra dura e seca dos verões quentes lá da terra… o dia do casamento com a Maria Joana, hoje a aquela a que todos chamavam a avó Joana… a primeira vez em que lhe tocou os tornozelos finos e pôde sentir o odor do seu colo. “Hmmm”, foi o momento da sua vida. Nesse instante parecia que todo o seu corpo crescera e rebentara numa explosão de lírios, gladíolos, orquídeas, flores do campo, de todas as cores, cheiros, feitios e tamanhos!...
“Pai?! Pai, está aí?” – era a Sara. Olhou-a, de olhos esbugalhados… - “ Tou, tou…”- enrolou a voz para dizer estas duas palavritas, mas lá lhe saíram a custo. “Então, pai, estávamos todos à sua procura. Venha para baixo. Os miúdos querem estar consigo e a canja está servida!”
Foi para a sala. A algazarra continuava. O bolo estava lindo, mesmo no centro da mesa. O grande capacete amarelo, agora mais pequeno e deformado pelas fatias já gastas, continuava ali. Sentou-se à mesa, faltava-lhe a colher, mas não disse nada. Estava distante. Os 25 anos do neto faziam-no pensar… observava Maria Joana, de rugas marcadas e mãos trémulas, a brincar com a Ritinha. Olhava a família, escutava os risos e sentia-se cheio. Cheio, cheio, cheio, a rebentar de tanta felicidade. Chegara finalmente ao lado de lá do arco-íris e segurava o tal pote nas mãos. Sim, o pote da felicidade.
“Avô, já viu? Não tem colher!” – observou o neto. “Aqui a tem”.
"Obrigada, filho.” – o avô começava, então, a comer a canja. Estava quente, ainda, e as bolhinhas de gordura luziam. “E o que me diz avô? Fiz 25 anos, já viu! E agora?” – perguntou o neto, olhando-o nos olhos. Eram dois olhos azuis que se digladiavam nos seus grandes olhos, igualmente, azuis. “Agora” – disse o avô -  “agora, abre a felicidade, meu neto”.

margarida moleiro
26.04.2009

1 comentário:

*Pérola* disse...

:)

Love you. BeijOoOoOO